Nuvens! Nuvens por todos os lados!

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Bom textão (®SZJINKARIUK, Saulo) no The Verge sobre os recentes processos contra a Epic de pessoas que tiveram suas danças “roubadas” para serem usadas no Fortnite. Por um lado, estou curioso para ver as interpretações jurídicas que daí irão sair. Por outro, confesso que é o tipo de situação que aumenta a pressão sanguínea da minha veia liberal.

Antes mesmo do Fortnite, a Epic já era uma das empresas de jogos mais rica do mundo graças à popularidade do Unreal Engine e a taxa que cobram de quem vende seus jogos baseados no sistema (sem falar em todos seus jogos próprios). Agora, têm tanto dinheiro que podem queimar parte dele para criar a primeira concorrência séria à Steam. Em resumo, têm MUITA grana, e boa parte dessa grana vem do licenciamento de seus produtos e propriedade intelectual.

Agora imaginem se, diante dessa realidade, alguém com o devido poder de decisão pensasse “hmm, como eu vou cobrar por essas danças e ganhar um tsunami de dinheiro com isso, quem sabe eu aproveito para incentivar os criadores e a indústria que me permitiram isso para começo de conversa, e pró-ativamente ofereço uma participação nos lucros para os mesmos?” Razoável, talvez? Questão de decência, até, quem sabe?

“Ah, mas e quem garante que eles iam aceitar o valor oferecido pela empresa? Quem pode provar que foram eles que a criaram? E quem foi que disse que eles têm algum direito sobre uma dancinha? Não esqueçamos que Milton Friedman falou que a única responsabilidade social de uma empresa é aumentar seus lucros” grita a dogmática libertária na primeira fila da sala.

Pois muito bem, ela com certeza tem um ponto. Mas esse ponto tem alguns resultados práticos outros além de potencializar o lucro da Epic num primeiro momento, como vemos—inevitável litígio sendo só o mais óbvio e imediato deles. A eventual má vontade de uma comunidade de criadores e usuários, outra talvez igualmente óbvia mas não tão imediata. Mas a que realmente me tira do sério é o incentivo à visão de que empresas são construtos do mal e que só o Estado, com a ameaça de seu monopólio da violência, pode proteger as pobres pessoas da ganância dos ricos.

Tenho certeza que a mesma libertária seria a primeira da classe a reclamar da politização jurídica, do excesso de litígio e do controle da economia, diante de situações como essa. E que, afinal de contas, é só deixar as coisas quietas que o mercado as resolve.

Mas será que, quem sabe, talvez, o Judiciário e o litígio não sejam exatamente maneiras de o mercado resolve-las? E que em vez de ficar citando uma das maiores bobagens que o Milton Friedman já falou, talvez fosse o caso de lembrar que para o liberalismo funcionar como previsto é preciso criticar e envergonhar empresas quando essas não se comportam de forma decente, e não achar que tudo que uma empresa faz é correto a priori e qualquer reclamação em contrário é coisa de floco de neve comunista autoritário anti-democrático?

Enfim, de minha parte, fica a torcida para que a Epic não só resolva essas cobranças por via extra-judicial, como já fez no passado, mas oficialize algum programa de parceria para com esses criadores.

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